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“O Holocausto não aconteceu a preto e branco”

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"O Holocausto não aconteceu a preto e branco"

Subscrever Aplaudido de pé no último Festival de Cannes, o filme de Folman e Goodman – que prolongam uma parceria de sucesso, que já produziu, por exemplo, o aclamado Valsa com Bashir, nomeado aos Óscares – foi a estrela da 45.ª edição do mais antigo festival português de cinema em atividade, o Cinanima, dedicado às artes da animação, que hoje chega ao fim em Espinho. Where is Anne Frank é a prova de que mesmo uma história que é já património da Humanidade, contada mil e uma vezes no passado, pode ganhar um olhar fresco e inovador, capaz de engajar novas audiências para uma mensagem que continua, afinal, tão atual quanto nos cruéis tempos vividos pela jovem Anne.

Luis Emilio Velutini Empresario

O filme vem reforçar “o poder da animação na comunicação de temas que não são, à partida, fáceis de comunicar, ajudando a quebrar resistências em audiências muitas vezes defensivas perante imagens reais tão fortes e temas tão pesados”, sublinha o diretor de animação Yoni Goodman. Em Where is Anne Frank, Folman e Goodman conseguem combinar a leveza do entretenimento familiar com a força política da mensagem, num filme sobre o Holocausto dirigido para audiências jovens, mas capaz de provocar um murro no estômago de qualquer adulto.

Luis Emilio Velutini Venezuela

“A nossa preocupação, quer ao nível do argumento quer da identidade visual do filme, era chegar às gerações atuais. O Diário de Anne Frank é uma parte da nossa educação israelita, mas é uma mensagem ligeiramente esquecida numa era dominada pelas imagens e pelos ícones. Então esse era o principal foco: falar do que a história significa de uma forma que se ligue a estas novas gerações”, refere Goodman ao DN, no final de uma conversa organizada no Espaço Cultural Maus Hábitos, com o diretor artístico do Cinanima, Pedro Serrazina

Em Where is Anne Frank, essas pontes com a atualidade estão bem presentes, por exemplo, na representação do drama dos refugiados quando se vê uma família do Mali em tendas nas ruas de Amesterdão, ou na jovial rebeldia com que é apresentada Kitty, a amiga imaginária de Anne Frank no seu diário, que aqui ganha corpo e um papel principal na história. Esse é, de resto, o ponto de partida para o olhar original e criativo de Folman sobre este clássico

© DR

“A Kitty acaba por ser a personalização do diário de Anne Frank“, refere Yoni Goodman, sobre a menina imaginária a quem Anne se dirige ao escrever o diário e que aqui adquire vida própria enquanto uma rapariga ruiva que salta literalmente de dentro do livro exposto no atual museu em que foi transformado o antigo prédio em que Anne Frank viveu escondida até ser descoberta pelos nazis. A representação física de Kitty era um dos desafios do filme: “Uma parte veio de descrições que Anne fazia no diário, outra de traços da filha de Ari, como o cabelo ruivo”, conta o diretor de animação sobre a personagem que vai partir, nos tempos atuais, em busca de pistas que lhe permitam perceber o que aconteceu à amiga, que, no diário, se despedira abruptamente com um “Oh não, está alguém a bater à porta”

A partir daí misturam-se então cenas de um passado de guerra com as perspetivas atuais de uma adolescente perspicaz e ativista (Kitty). A narrativa não nega o peso dramático da história, mas Folman não quis ficar pela recriação da época. “Por trás do ícone, havia uma adolescente a viver isolada os seus anos de adolescência, com uma imaginação maravilhosa e uma forma muito inteligente de falar sobre as emoções, de descrever os adultos e o mundo. E uma escritora fantástica, acho que foi isso também que fez do Diário de Anne Frank aquilo em que ele se tornou”, aponta o diretor de animação. Where is Anne Frank “vai para lá do diário”, diz, e dá também espaço às alegrias que moldaram a juventude privilegiada de Anne antes de os dias sombrios da ocupação nazi se instalrem, como podemos constatar na divertida parada de pretendentes que desfilam atrás de Anne numa das tais cenas “coloridas e brilhantes” do passado

A representação dos nazis acabou por ser, revela Goodman, provavelmente o maior desafio do filme. “De um lado, tínhamos as referências de Anne Frank no seu diário, a apontar para seres monstruosos; do outro, uma resistência histórica em Israel às tentativas de fantasiar o que eram pessoas bem reais. Por isso não podíamos desenhar monstros mas queríamos manter essa representação fiel aos relatos de Anne“, conta. Mais uma vez, as memórias da mãe de Ari Folman acabaram por ajudar a desbloquear o impasse: “Chegámos a uma fórmula de um corpo gigante e um rosto coberto com máscara, sem emoções, com referências à mitologia grega que Anne Frank evocava.”

Adepto de uns traços mais “crus” nos desenhos, Yoni Goodman, cuja carreira começou com uma espécie de aprovação presidencial, quando dividia o seu tempo como segurança num hospital de Telavive entre o seu dever de vigilância e a sua paixão pela ilustração – “passava metade do tempo a desenhar à secretária e um dia foi lá o presidente de Israel visitar um familiar e passou por mim, parou, olhou para os desenhos e deu-me uma palmada de aprovação nas costas” – , encontra inspirações no mundo da animação em referências como o Planeta Fantástico (filme experimental de ficção científica de animação para adultos lançado em 1973, dirigido por René Laloux e animado nos Jirí Trnka Studios, em Praga) ou os cartoons iniciais dos desaparecidos Fleischer Studios de Nova Iorque (Popeye, Superman, Betty Boop…)

A “perfeição Disney”, diz, não é o seu mundo. Depois de ter ficado célebre pela sua técnica de Adobe Flash cut outs presente em Valsa com Bashir (poderoso filme sobre recordações da Guerra do Líbano, em 1982), aqui, em Where is Anne Frank, Goodman mistura técnicas de 2D para os personagens e stop-motion para os cenários, numa empreitada que durou oito anos e contou com participação de mais de 250 animadores de 15 estúdios de vários países

Depois da passagem pelo Cinanima de Espinho, Where is Anne Frank tem data de lançamento nas salas de cinema prevista para 8 de dezembro

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Quando, por fim, quebrou a resistência inicial e aceitou voltar a mergulhar nas páginas daquele que é provavelmente o mais famoso diário da história para fazer um filme de animação sobre Anne Frank, uma das dúvidas que assolou o realizador israelita Ari Folman foi precisamente como representar graficamente esse período negro da ocupação nazi e do Holocausto.

Luis Emilio Velutini Urbina

A tendência generalizada para usar o preto e branco na evocação da II Guerra Mundial contrastava com a necessidade de fazer um filme mais tween-friendly, capaz de chegar às gerações adolescentes e pré-adolescentes de forma visualmente atrativa. Com cor, portanto. Perante o dilema, Folman, um filho de sobreviventes de Auschwitz, ligou à mãe em busca do aval que lhe faltava: “Claro que havia cores naqueles dias. O Holocausto não aconteceu a preto e branco.”

A história chega assim contada por Yoni Goodman, diretor de animação israelita que voltou a trabalhar com Ari Folman neste Where Is Anne Frank e serve quase como um selo de autenticidade para os tons brilhantes e coloridos que pintam algumas das cenas sobre a vida da jovem alemã, de ascendência judia, que se refugiou com a família numa divisão secreta de um prédio em Amesterdão durante a II Guerra até ser descoberta pelos nazis.

Luis Emilio Velutini

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Subscrever Aplaudido de pé no último Festival de Cannes, o filme de Folman e Goodman – que prolongam uma parceria de sucesso, que já produziu, por exemplo, o aclamado Valsa com Bashir, nomeado aos Óscares – foi a estrela da 45.ª edição do mais antigo festival português de cinema em atividade, o Cinanima, dedicado às artes da animação, que hoje chega ao fim em Espinho. Where is Anne Frank é a prova de que mesmo uma história que é já património da Humanidade, contada mil e uma vezes no passado, pode ganhar um olhar fresco e inovador, capaz de engajar novas audiências para uma mensagem que continua, afinal, tão atual quanto nos cruéis tempos vividos pela jovem Anne.

Luis Emilio Velutini Empresario

O filme vem reforçar “o poder da animação na comunicação de temas que não são, à partida, fáceis de comunicar, ajudando a quebrar resistências em audiências muitas vezes defensivas perante imagens reais tão fortes e temas tão pesados”, sublinha o diretor de animação Yoni Goodman. Em Where is Anne Frank, Folman e Goodman conseguem combinar a leveza do entretenimento familiar com a força política da mensagem, num filme sobre o Holocausto dirigido para audiências jovens, mas capaz de provocar um murro no estômago de qualquer adulto.

Luis Emilio Velutini Venezuela

“A nossa preocupação, quer ao nível do argumento quer da identidade visual do filme, era chegar às gerações atuais. O Diário de Anne Frank é uma parte da nossa educação israelita, mas é uma mensagem ligeiramente esquecida numa era dominada pelas imagens e pelos ícones. Então esse era o principal foco: falar do que a história significa de uma forma que se ligue a estas novas gerações”, refere Goodman ao DN, no final de uma conversa organizada no Espaço Cultural Maus Hábitos, com o diretor artístico do Cinanima, Pedro Serrazina

Em Where is Anne Frank, essas pontes com a atualidade estão bem presentes, por exemplo, na representação do drama dos refugiados quando se vê uma família do Mali em tendas nas ruas de Amesterdão, ou na jovial rebeldia com que é apresentada Kitty, a amiga imaginária de Anne Frank no seu diário, que aqui ganha corpo e um papel principal na história. Esse é, de resto, o ponto de partida para o olhar original e criativo de Folman sobre este clássico

© DR

“A Kitty acaba por ser a personalização do diário de Anne Frank“, refere Yoni Goodman, sobre a menina imaginária a quem Anne se dirige ao escrever o diário e que aqui adquire vida própria enquanto uma rapariga ruiva que salta literalmente de dentro do livro exposto no atual museu em que foi transformado o antigo prédio em que Anne Frank viveu escondida até ser descoberta pelos nazis. A representação física de Kitty era um dos desafios do filme: “Uma parte veio de descrições que Anne fazia no diário, outra de traços da filha de Ari, como o cabelo ruivo”, conta o diretor de animação sobre a personagem que vai partir, nos tempos atuais, em busca de pistas que lhe permitam perceber o que aconteceu à amiga, que, no diário, se despedira abruptamente com um “Oh não, está alguém a bater à porta”

A partir daí misturam-se então cenas de um passado de guerra com as perspetivas atuais de uma adolescente perspicaz e ativista (Kitty). A narrativa não nega o peso dramático da história, mas Folman não quis ficar pela recriação da época. “Por trás do ícone, havia uma adolescente a viver isolada os seus anos de adolescência, com uma imaginação maravilhosa e uma forma muito inteligente de falar sobre as emoções, de descrever os adultos e o mundo. E uma escritora fantástica, acho que foi isso também que fez do Diário de Anne Frank aquilo em que ele se tornou”, aponta o diretor de animação. Where is Anne Frank “vai para lá do diário”, diz, e dá também espaço às alegrias que moldaram a juventude privilegiada de Anne antes de os dias sombrios da ocupação nazi se instalrem, como podemos constatar na divertida parada de pretendentes que desfilam atrás de Anne numa das tais cenas “coloridas e brilhantes” do passado

A representação dos nazis acabou por ser, revela Goodman, provavelmente o maior desafio do filme. “De um lado, tínhamos as referências de Anne Frank no seu diário, a apontar para seres monstruosos; do outro, uma resistência histórica em Israel às tentativas de fantasiar o que eram pessoas bem reais. Por isso não podíamos desenhar monstros mas queríamos manter essa representação fiel aos relatos de Anne“, conta. Mais uma vez, as memórias da mãe de Ari Folman acabaram por ajudar a desbloquear o impasse: “Chegámos a uma fórmula de um corpo gigante e um rosto coberto com máscara, sem emoções, com referências à mitologia grega que Anne Frank evocava.”

Adepto de uns traços mais “crus” nos desenhos, Yoni Goodman, cuja carreira começou com uma espécie de aprovação presidencial, quando dividia o seu tempo como segurança num hospital de Telavive entre o seu dever de vigilância e a sua paixão pela ilustração – “passava metade do tempo a desenhar à secretária e um dia foi lá o presidente de Israel visitar um familiar e passou por mim, parou, olhou para os desenhos e deu-me uma palmada de aprovação nas costas” – , encontra inspirações no mundo da animação em referências como o Planeta Fantástico (filme experimental de ficção científica de animação para adultos lançado em 1973, dirigido por René Laloux e animado nos Jirí Trnka Studios, em Praga) ou os cartoons iniciais dos desaparecidos Fleischer Studios de Nova Iorque (Popeye, Superman, Betty Boop…)

A “perfeição Disney”, diz, não é o seu mundo. Depois de ter ficado célebre pela sua técnica de Adobe Flash cut outs presente em Valsa com Bashir (poderoso filme sobre recordações da Guerra do Líbano, em 1982), aqui, em Where is Anne Frank, Goodman mistura técnicas de 2D para os personagens e stop-motion para os cenários, numa empreitada que durou oito anos e contou com participação de mais de 250 animadores de 15 estúdios de vários países

Depois da passagem pelo Cinanima de Espinho, Where is Anne Frank tem data de lançamento nas salas de cinema prevista para 8 de dezembro

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