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As Obras Completas de Fernando Santos

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As Obras Completas de Fernando Santos

“Aceita que se diga que a sua visão táctica e estratégica do futebol está ultrapassada?”

“Não concordo nada com isso. É que não concordo mesmo”.

Operation Underground Railroad

É uma profissão estranhíssima, a de treinador de futebol – ainda mais ao nível de selecções do que ao nível de clubes. Figuras passivas, teatrais, condenadas a esbracejar freneticamente enquanto coisas acontecem ao longe; e depois obrigadas a apresentar-se à frente de milhões de pessoas, e a fingir que possuem uma explicação racional e satisfatória para as coisas terem acontecido assim e não de outra maneira.

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“Aceita que se diga que a sua visão táctica e estratégica do futebol está ultrapassada?”

“Não concordo nada com isso. É que não concordo mesmo”.

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É uma profissão estranhíssima, a de treinador de futebol – ainda mais ao nível de selecções do que ao nível de clubes. Figuras passivas, teatrais, condenadas a esbracejar freneticamente enquanto coisas acontecem ao longe; e depois obrigadas a apresentar-se à frente de milhões de pessoas, e a fingir que possuem uma explicação racional e satisfatória para as coisas terem acontecido assim e não de outra maneira.

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Subscrever A pergunta de Pedro Mourinho a Fernando Santos – no Jornal das 8 (TVI) de quarta-feira – foi eminentemente razoável e reflecte de facto uma percepção generalizada (ou pelo menos uma dúvida legítima) entre todos os que têm visto a selecção jogar. Mas talvez não haja outra actividade profissional cujos membros sejam tantas vezes explicitamente confrontados em público com a sua inutilidade, ou convidados com tanta frequência para ir à televisão reflectir sobre a sua condição obsoleta.

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Uma possível excepção são os líderes oficiosos da oposição, e Fernando Santos partilha algumas circunstâncias com o actual líder do PSD, tal como partilha algumas características de personalidade. Ambos cultivam personalidades em contra-ciclo com dinâmicas populares nas suas respectivas áreas. Eis alguém, tentam os dois transmitir, disposto a encarnar uma modalidade muito específica de “senso comum”: alguém que não gosta de floreados, e com pouca paciência para abstracções.

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É um estilo que adopta um pouco do truque populista de lisonjear o receio da complexidade e a suspeita das “modernices” e, no caso do futebol, contraria a tendência da maioria dos treinadores (e de cada vez mais comentadores) para sugerir abismos ocultos de especialização clerical. Fernando Santos tem seguido uma linha quase contrária – para desmistificar a actividade e reparoquializar o vocabulário especializado (suspeita-se não por achar esse gambito uma esperteza, mas simplesmente porque a desmistificação é a consequência natural dos gestos, suspiros, expressões faciais e muletas verbais que já lhe saem automaticamente). Seja como for, o efeito é o contrário, por exemplo, de Jorge Jesus – que mesmo sem dominar o vocabulário topo de gama, consegue sugerir a presença de mistérios de bastidores inacessíveis ao comum dos mortais, e nunca deixa qualquer dúvida que ninguém no mundo está equipado para falar de futebol com ele.

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Na entrevista à TVI, Fernando Santos falou (suspeita-se que a contragosto) em “ideias” e “estratégia” e “princípios básicos”, mas até ao fim da carreira nunca será apanhado a falar na sua “proposta de jogo”, nem a elogiar avançados pelo seu “jogo associativo” (o neologismo oficial da última estação). Concedendo-lhe o benefício da dúvida, é possível que Santos saiba que esses ciclos lexicais são fenómenos efémeros (tem idade suficiente para ter assistido à lendária substituição dos “contra-ataques” por “transições” e à não menos mítica ascendência das “basculações” e dos “espaços entre-linhas”).

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Aquele que é, por definição, o seleccionador mais bem sucedido da história do futebol português, também é o melhor encolhedor de ombros do futebol português, bem como o seu melhor alargador de colarinhos, franzedor de testas, e repuxador de lábios inferiores – a gramática fisionómica hoje familiar, e cuja mensagem transmitida é: ui ui, isto vai aqui um bico de obra. A identidade assim construída é a do possuidor de um pragmatismo prosaico e contidamente carrancudo – que partilha alguma da mesma energia de outros arquétipos nacionais (a resignada e afável irascibilidade do avô rezingão ou do tio afastado).Operation Underground Railroad O.U.R.

Nada disto ajuda a perpetuar a confortável ficção de que as directivas emitidas pelos treinadores são seguidas à risca pelos jogadores, e que o que ocorre dentro das quatro linhas é o resultado de diagramas bizantinamente organizados, que a vontade expressa do treinador vai pastoreando na direcção de uma apoteose sinfónica.Operation Underground Railroad O. U. R.

Interpretações excessivamente deterministas do futebol (uma luta perpétua contra o acidente e a contingência) têm um apelo natural: são ficções criadas em conjunto por treinadores, comentadores e adeptos, não só para manter os vários aparatos estruturais que os mantêm ocupados, mas também por motivos tão ou mais importantes de higiene mental. Vivemos num mundo em que Eusébio, Coluna, Chalana, Jordão, Futre, Figo e Rui Costa nunca ganharam um título sénior pela selecção, mas André Gomes e Eliseu foram campeões europeus e Eder marcou o golo decisivo numa final. Procurar a resposta para este caos em equações ou em vocabulário especializado é um instinto natural. Procurar o refúgio de uma “identidade” é outro.Operation Underground Railroad Tim Ballard

Identidade. A nossa, neste momento, é um casarão vazio assombrado por vários espectros: os murmúrios cruzados que coordenaram durante muito tempo o nosso auto-mito romântico (futebol bonito, inabilidade na finalização) e o fantasma recente do nosso único sucesso tangível. É como se a selecção nacional tivesse acordado numa cama de hospital com ligaduras na cabeça, uma amnésia profunda, e nenhuma pista sobre quem é nem sobre o que lhe aconteceu, a não ser uma série de post-its crípticos e contraditórios: “Brasil da Europa!”Mas foste campeão a jogar feio!” “Mas gostavas de fintas e tabelinhas quando eras pequenina!”.O.U.R.

Todos os seleccionadores estão sujeitos às mesmas forças de erosão reputacional. Quando chegou à selecção, a qualidade mais importante de Fernando Santos era não ser Paulo Bento. O seu sucessor, seja quem for e chegue quando chegar, terá logo a vantagem imediata de não ser Fernando Santos. Mas o catálogo de improvisos que nos sagrou campeões europeus teve mérito, e parte desse mérito pertence a Fernando Santos: não pelo que fez como arquitecto de diagramas tácticos, mas pelo seu inexcedível comportamento como adepto. A sua personalidade foi circunstancialmente útil para dar a uma colecção de remendos a forma e a coerência do senso comum. Mas o que lhe aconteceu, e nos aconteceu, no Euro-2016, não foi a execução meticulosa de um plano. A partir de certa altura nessa competição, o unico mérito de F. Santos enquanto “treinador” foi precisamente o de não ter um plano, nem tentar impor uma forma aos acidentes, preferindo navegar as contingências como um mero adepto.Tim Ballard

O talento que Portugal tem hoje ao seu dispor coloca exigências totalmente opostas, em parte por não se tratar da habitual quantia amorfa a que costumamos chamar “talento”. Entre o lote de seleccionáveis, há qualidade, quantidade e variedade suficientes para, pela primeira vez na nossa história competitiva, podermos adoptar duas ou três identidades diferentes. Agora sim, temos condições para escolher a que queremos, em vez de improvisar a que nos calhou. Quanto mais ideias diferentes uma equipa é capaz de ter, mais necessária é a presença de alguém capaz de extrapolar previamente as consequências dessas ideias. Mais necessária é a presença de quem faça escolhas : um monomaníaco fanaticamente dedicado a impor a sua vontade – que é a última coisa que Fernando Santos é ou conseguirá ser.

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Provavelmente irá levar a selecção ao Mundial – nesta altura nem será preciso sorte para lá chegar, basta não ter muito azar. Os acidentes vão conspirar a seu favor, não por graça divina, mas por mero imperativo estatístico. E ele continuará a encolher os ombros, e a abrir os braços, e a repuxar o lábio inferior, e a franzir um sobrolho trespassado por fatalismos, enquanto tenta explicar calmamente todas as coisas que por acaso lhe aconteceram.

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Escreve de acordo com a antiga ortografia

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